O preço da paz é o eterno monitoramento

02 fev 2018

                                                                     

brasilia

Observe aquele senhor chegando ao desembarque do Aeroporto Internacional de Brasília: pastinha 007, terno arrumadinho, sapato engraxado e um olhar sinistro…”prá onde que eu vou?”.  É o Prefeito de uma pequena cidade do Nordeste do Brasil.

Observe aquele senhor elegante, terno importado, maleta de griffe, uma pessoa esperando por ele e motorista na pista interna do aeroporto para que ele não ande muito. É o CEO de uma grande empresa internacional em visita à Capital.

O que guardam de semelhante estes dois personagens?

Ambos estão na busca de um mesmo desiderato: atuar em Brasília para que seu orçamento, seu produto e sua empresa possam sobreviver e não sejam atingidas por uma caneta – mesmo que uma simples BIC – desmanchando planos de obras,  negócios e estratégias de marketing desenhadas e implantadas após anos de pesquisa e testes.

Sim, a Capital Federal se transformou numa Torre de Babel com influência direta no planejamento das ações corporativas. Quem dela se descuidar pode pagar alto preço pela sobrevivência. Empresas, entidades e conglomerados montam estruturas muito sofisticadas e ainda têm grandes dificuldades para evoluir nos corredores dos prédios públicos. O que dizer de pessoas, empresas e instituições que, de fora da capital e sem recursos, acompanham os acontecimentos pela mídia e redes sociais.

Um dos grandes segredos de sucesso empresarial é o relacionamento estratégico e  constante com os órgãos regulatórios do setor e o severo acompanhamento de Projetos de Lei no Congresso Nacional. Com 513  deputados federais e 81 senadores, há um manancial imenso de surgimento de todo tipo de ataque ou medidas concorrenciais não desejadas.

Há tempos as Medidas Provisórias deixaram de ser o instrumento de aceleração das leis emitidas pelo Governo Federal, sem participação do Poder Legislativo no momento da emissão,  e se consolidaram como o canal privilegiado para patrocínio de favores, benefícios e concorrência desleal de natureza comercial. Isso porque, diferentemente da orientação constitucional, os temas objeto de MPs não são de urgência e relevância, cumulutivamente. Os cacos, inserção de interesses através de Emendas, podem trazer novidades e surpresas desagradáveis numa disputa concorrencial. Tudo isso significa que empresários que queiram defender seus interesses necessitam de pessoas de alta qualificação para acompanhar a tramitação de Medidas Provisórias e cuidar para que nenhum desvio seja inserido no seu texto. Muitas vezes, Medidas Provisórias recebem de 300 a 400 emendas. É uma guerra surda de difícil monitoramento.

Assim, sendo o preço da paz a eterna vigilância, a sobrevivência dos negócios está diretamente ligada ao monitoramento das atividades governamentais. Muthar Kent, CEO da The Coca-Cola Company definia essa dependência com o seguinte pensamento: “num mundo onde os fatos mudam constantemente a realidade abaixo dos seus pés, é preciso dormir, respirar e viver Relações Governamentais todo o tempo”.

Jack Corrêa
Presidente
JC Articulação e Estratégias – BSB

 

Compartilhe:

Comentários

  1. Júio Miranda Diz: Fevereiro 2, 2018 at 11:13 am

    O artigo do Jack é brilhante. Aliás, de relações governamentais ele sabe tudo. É o verdadeiro profissional de defesa de legítimos interesses organizacionais, que carrega uma pasta recheada de argumentos e não de verdinhas- como fazem os maus e muito comuns lobistas atuais. Parabéns, Jack, pelo artigo e pela sua trajetória profissional e pessoal.
    Júlio Miranda

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *