O que aprender com o UBER

06 jan 2016

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Há pouco mais de 1 ano, chegava ao Brasil o aplicativo Uber. Um rosário de lamentações e de agradecimentos vem se desenrolando, desde então. O aplicativo norte-americano foi considerado o negócio mais disruptivo de 2015 pela revista Forbes. Ou seja, com capacidade de derrubar um mercado. Entre aceleradas e freadas, foi exatamente o que ele fez. A frequência de matérias sobre o Uber nos noticiários só aumenta o interesse dos consumidores pelo serviço. Em dezembro de 2015, a empresa chegou a US$ 64 bilhões de valor de mercado, superando as gigantes GM e Ford. Que reflexões empresários e gestores de negócios tradicionais devem fazer a partir do sucesso do Uber? Eu me arrisco a fazer as minhas, neste artigo.

Desenvolvido na Califórnia, Estados Unidos, o app foi a resposta à uma experiência ruim vivida por dois empreendedores jovens chamados Travis Kalanick e Garret Camp, que já eram bem-sucedidos à época, por terem criado, e vendido, outros negócios. Eles estavam em Paris para participar de um evento, era noite de chuva, e não conseguiam pegar um táxi. Do incômodo, brotou a iniciativa de criar um aplicativo que pudesse aumentar as probalidades de um passageiro encontrar o transporte que precisa, na hora que deseja, sem ter dinheiro ou cartão de crédito nas mãos, mas de posse de um celular. O novo sistema de transporte unia o desejo de passageiros querendo um bom serviço, carros e motoristas ociosos, e a praticidade e a segurança das transações via internet. E lá foi o Uber para as ruas, convencer motoristas a colocar seus carros de luxo no sistema, e passageiros a se cadastrar previamente para requisitar e pagar esses carros pelo aplicativo. Foi mais fácil convencer passageiros, que motoristas. No princípio, o serviço era mais caro que o táxi tradicional. Agora, já está quase igual, mas a polêmica continua: o Uber afronta a legislação que controla os táxis?

Sim, ele afronta. O Uber começou suas operações ignorando toda e qualquer legislação sobre transporte de passageiros, lá nos Estados Unidos, no Brasil e em todo lugar, e diz que não se considera um serviço de táxi, mas um complemento a ele. Nenhum consultor de novos negócios recomenda que um empreendedor ignore leis. Pelo contrário, faz parte de qualquer plano de negócios considerar a legislação do setor. Com o Uber não foi assim. Apesar dos protestos das entidades representativas dos taxistas, aliadas ou não deputados e vereadores, os carros pretos de luxo continuam circulando. O que explica essa força de ser apedrejado e ainda se manter de pé? Demanda de mercado, curiosidade e competência.

A demanda de mercado é clara. A curiosidade foi motivada pelas constantes manchetes no noticiário. A competência é o resultado de enxergar oportunidade e criar resposta. Os aplicativos de táxi que se aliam às cooperativas, como o Easy Taxi e o 99Táxis, começaram a operar no Brasil antes do Uber, mas não causaram nenhum alvoroço, pois se aliaram à lógica existente no transporte de passageiros, só oferecendo mais praticidade para o usuário – o que já foi ótimo, e pegando uma fatia menor do bolo, claro. O Uber é disruptivo porque criou uma nova lógica, tirando carros ociosos da garagem, criando uma nova categoria de motoristas não profissionais, impondo condições de trabalho e de remuneração, e condicionando pagamentos e repasses à segurança das bandeiras de cartão de crédito. Ousadia pura! É essa coragem de pensar e fazer diferente que deve ser o grande exemplo para os negócios tradicionais, que sabem ser bem repetitivos. Gosto daquela frase do poeta francês Jean Cocteau: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez”, pois traduz os resultados gerados pelos empreendedores que ignoram a tradição e os erros dos precursores. Todo empresário e gestor precisa de uma dose desse sentimento pra dar conta de inovar. Se não, ficam maquiando decisões manjadas, dando a elas ares de novidade. Foi assim com uma cooperativa de táxis, em Belo Horizonte, que pediu minha opinião sobre um aplicativo que eles queriam lançar, na tentativa de fazer frente àqueles que já ganhavam mercado. Eu disse que jogariam dinheiro fora, que melhor seria se associarem aos aplicativos existentes. Dito e feito, gastaram dinheiro e não emplacaram o serviço.

Só sei que a cada novo aporte de capital, o Uber confirma seu talento para ficar de pé diante dos ataques. O IPO ainda não tem data pra acontecer, mas ninguém duvida que ele virá. O que não consigo acreditar é que, antes disso, a legislação brasileira vá conseguir regulamentar esse serviço em todo o país. Mais dia, menos dia, isso acabará sendo feito, já que nosso estado atua de forma intervencionista e não parece disposto a mudar isso. Mas a menos que a justiça impeça o Uber de operar, sendo um negócio inteligente, bem estruturado e bem gerido, ele seguirá em frente se adaptando e crescendo, pois é flexível e tem escala.

Inácia Soares
Jornalista
contato@inaciasoares.com.br

 

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Comentários

  1. Ótima leitura, como sempre, abrangendo tanto o contexto quanto o fato.

  2. Oi

    Amei blog.

    Abraços!

  3. Olá

    Adorei site.

    Cumprimentos!

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