Palmas para o desemprego

26 abr 2017

moeda palma

 

Como todo brasileiro que se preza, dou palpites no futebol como se fosse um técnico. Dou pitacos também em política, religião, automobilismo e, principalmente, em economia. A minha autoridade de “economista prático” recomenda Palmas para o desemprego. Não para o desemprego conjuntural fruto de crises econômicas, gestado em incompetências administrativas e em ideologias sem lastro. Palmas vão para o desemprego estrutural. Esse é definitivo. É resultado do avanço tecnológico que emprega, com significativos ganhos de produtividade, softwares e máquinas sem ter que assinar carteira de trabalho. Softwares e robôs estão longe de leis quase seculares criadas como proteção, mas que pela caduquice acabam penalizando aqueles a quem deveriam proteger: os trabalhadores.

 

Se eu fosse porta-voz de uma dessas ideologias pouco responsáveis recomendaria a proibição de softwares inteligentes, robôs e outros equipamentos. Proporia também a redução da jornada de trabalho “para elevar o nível de emprego”, ignorando o insucesso de quem já tentou essa ficção. E se fosse um governante desses comprometidos com ideologias (boas para a “senzala” mas não aplicáveis ao seu mundinho particular na “casa grande”) aproveitaria para cobrar contribuições dos robôs ao INSS. Seria vantajoso, pois robôs não precisam se aposentar. Simplesmente ficam obsoletos e vão para a sucata, sem mesmo engrossar as filas dos deploráveis hospitais públicos.

 

Qual é a saída então para esse caminho sem volta de produzir cada vez mais com menos empregados? Aposto na microeconomia. Pessoas fazendo serviços,  produzindo  e vendendo coisas em seu microambiente. Mirem-se no exemplo da Palmas, primeira moeda social brasileira, criada em 2001 pela comunidade pobre do bairro Palmeiras de Fortaleza. Sob a liderança do ex-seminarista Joaquim Melo, a comunidade criou em 1998 o Banco Palmas e ficou três anos em queda de braço com o Banco Central para ser reconhecido. Inconformado com a pobreza do bairro, apesar de ser habitado por trabalhadores, o líder comunitário resolveu estudar o porquê daquela injusta realidade e encontrar uma solução.

 

Após dezenas de reuniões, os moradores descobriram que eram pobres não por falta de dinheiro, mas por gasta-lo fora do bairro. Resolveram, então, criar o Banco e a moeda Palmas lastreada em reais. A moeda circula apenas no bairro e é aceita por cerca de trezentos estabelecimentos comerciais, que concedem descontos de cinco por cento em média para quem paga com Palmas. O Banco, por sua vez, dá desconto para quem troca reais por palmas e cobra um ágio para operações inversas. A iniciativa aqueceu a economia do bairro Palmeiras, despertou a criação de marcas e bens produzidos e vendidos no próprio local. Alguns moradores trabalham fora e levam para dentro do bairro seus salários em reais que, trocados por Palmas,  passam a fomentar em proporção geométrica a economia do Palmeiras. Batizo essa experiência bem-sucedida de “umbilicalização”- conceito de globalização aplicado a um mundo bem mais perto dos nossos umbigos.

 

Palmas inspirou a criação de mais de uma centena de moedas sociais, que têm sido a solução para diversas comunidades pobres Brasil afora. É a consolidação do conceito de Economia Solidária e de Banco Comunitário de Desenvolvimento- BCD. O exemplo criado pelo Joaquim Melo merece um olhar mais profundo de governos e outras comunidades pobres ou não. Acredito que a classe média, que é uma comunidade cada vez mais desempregada, deveria se mirar no exemplo do bairro Palmeiras e dos bancos comunitários, que até então têm sido coisa só de pobre. Porque se  demorar demais a criar seu próprio conceito de desenvolvimento, encarar o cooperativismo, o marketing de relacionamento e multinível como saída,  não precisará mais, pois se encaixará no perfil dos atuais BDC.

Júlio Miranda
Presidente da Miranda Consult
Diretor do Conselho de Presidentes
julio@conselhodepresidentes.net

 

 

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