Retribua o sorriso

Já imaginou se a aristocracia de 1690 e os cidadãos de Gotham City de 2019 tivessem retribuído os sorrisos de Gwynplaine e do Coringa?

Só tenho boas lembranças da minha avó. Ela adorava cantarolar Dean Martin em “When You’re Smiling”: “Quando você está sorrindo, continue sorrindo, todo o mundo sorri com você. E quando você está rindo, oh, quando você está rindo, o sol brilha”. Por outro lado, escrito há 150 anos por Victor Hugo, “O Homem que Ri” celebrizou o jovem Gwynplaine, sequestrado e desfigurado por seus captores, os “comprachicos”, povo praticante da mutação física deliberada, inclusive em crianças, para o deleite da aristocracia inglesa de 1690. Por causa da sua desfiguração, Gwynplaine se sentiu indigno até para amar.

Já em “Coringa”, filme de 2019, Arthur Fleck sofre de uma doença neurodegenerativa e, maltratado pela sociedade de Gotham City, deixa ao cinemeiro a mensagem de que qualquer pessoa está a um dia ruim de se tornar um psicopata. O livro é uma obra-prima universal e a película, segundo a revista “Forbes”, se tornou a maior bilheteria de uma produção para maiores de 18 anos.

A contemporaneidade da discussão sobre o impacto de um rosto que carrega as dimensões trágicas e cômicas da existência, antes de estar na reflexão de Gwynplaine – “É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos” –, reside na poesia do mestre Caetano, quando ele canta que “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

No Brasil, conforme pesquisa da Talento Incluir em parceria com a Vagas.com, cerca de 40% dos profissionais já se sentiram discriminados no trabalho e mais da metade se achou lesada em processos seletivos “por fatores como idade, raça, classe social e deficiência”.

No entanto, os predicados se apresentam de maneiras desiguais, e a diversidade favorece a criatividade e as novas formas de tomadas de decisão. Conviver com o diferente contribui para o aprendizado múltiplo, engrandece o trabalho, enobrece a alma e, sobretudo, dignifica o Criador.

A diversidade dos profissionais dentro das organizações é um alavancador para a vantagem competitiva. Sem os colaboradores talentosos, as empresas não sobrevivem. Não temos somente um perfil para definirmos os talentos, tudo funciona como um escrete de futebol. Precisamos de atacantes, mas é necessário termos goleiro, zagueiros, técnicos, preparadores físicos, médicos e, não duvide, até cartolas.

E é por isso que o tema diversidade e inclusão é essencial para a formação de um time vitorioso e deve ser pensado em seu espectro amplo, abarcando peculiaridades como de gêneros, raças, orientações sexuais, gerações, pensamentos, formações, comportamentos e pessoas com deficiência (PCD).

Aliás, falar de diversidade e inclusão é assegurar os próprios direitos humanos, garantindo que as nossas relações derivem da natureza do que somos. Tampouco está longe de se constituir em caridade ou ser mote para a pregação de assistencialismo.

Ainda assim e apesar dos pesares, tomando-se como paradigma, segundo as pesquisas, em relação ao cumprimento da lei de cotas pelas empresas, aproximadamente 86% delas se submetem à inclusão estritamente dentro dos limites legais, por obrigação, portanto. A resistência não é somente cultural. Há desconhecimento de métodos de contratações, formas de entrevistas e, pior, há despreparo para se cuidar de gente, o que se traduz em incompetência travestida de desinteresse ou em um discurso vil de que, não quaisquer pessoas, mas as diferentes estão a um dia ruim de se tornarem psicopatas, representando um perigo para as organizações. A grande barreira é, pois, atitudinal.

Enquanto estamos com dados negativos da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) para o desemprego em geral, sobe o índice para empregos de pessoas com deficiência. Não podemos enfrentar somente o geral, os gestores precisam lidar com o particular de cada sujeito. Discutir sobre diversidade é chamar para a festa, mas inclusão é convidar para dançar.

Já imaginou se a aristocracia de 1690 e os cidadãos de Gotham City de 2019 tivessem retribuído os sorrisos de Gwynplaine e do Coringa? Com certeza, nossos protagonistas teriam sido chamados para a festa, convidados para dançar e passariam à posteridade como homens amados e respeitados. Minha avó era sábia: retribua o sorriso e o mundo sorrirá com você.

Eliane Ramos

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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