A sua Empresa Constrói ou Destrói Valor?

As atividades de uma empresa devem propiciar um excedente que a permita custear suas despesas administrativas e operacionais, pagar os seus fornecedores e os impostos, financiar os investimentos e remunerar os proprietários/acionistas. O lucro emerge, assim, como um grande desafio dos gestores. Com o passar do tempo, o crescimento das economias, a busca incessante do lucro e a massificação do consumo resultaram na degradação do meio ambiente e aumentaram as disparidades sociais e a situação de pobreza de segmentos da sociedade, tanto em países avançados quanto naqueles de economias retardatárias.

Neste contexto, nas duas últimas décadas do século passado, emergiu um movimento proclamando que uma organização não deve ter como meta apenas o lucro, mas que necessita incorporar em sua gestão as dimensões ambientais e sociais. Isto deu lugar ao intitulado 3P (People, Planet, Profit), também conhecido como Triple Bottom Line (Social, Ambiental, Financeiro). O tripé da sustentabilidade empresarial, conceito associado a John Elkington, representa uma nova forma de pensar o papel da empresa na sociedade e abraça a ideia de que esses três construtos precisam interagir e ser levados em consideração, de forma que a sociedade reconheça a empresa como uma Organização Sustentável.

Recentemente, o conceito de sustentabilidade empresarial foi alterado, com destaque, também, para a Governança. Esse modelo de negócios conhecido como ESG (Environmental, Social, Governance) não constitui, portanto, um tema novo no mercado, mas sim uma adaptação de práticas que respeitam o meio ambiente e contribuem para a promoção social, acrescidas do compromisso com a ética e transparência (Governance). Esta dimensão abrange aspectos de transparência nos relatórios financeiros e contábeis, independência e diversidade nos conselhos, integridade e práticas anticorrupção, gestão de riscos e respeito aos acionistas e aos demais stakeholders.

Embora não figure na sigla ESG, o resultado econômico não foi abandonado como meta de gestão, pois ele é fundamental para a sustentabilidade de uma organização. Os adeptos desse modelo argumentam, ademais, que empresas que adotam o ESG apresentam melhor desempenho econômico. Sem desconsiderar a importância do ESG nesses novos tempos, pondera-se que a relação entre o modelo e o desempenho não é uma questão trivial, pois em economia e nas ciências sociais a causalidade não é facilmente identificada. Fica a indagação: o ESG promove o resultado econômico ou empresas com sólidos resultados econômicos adotam o modelo ESG? Talvez a relação não seja unidirecional, mas bidirecional, ou seja, as dimensões ambiental, social e de governança precisam interagir com a dimensão econômico/financeira de forma holística para a empresa alcançar a sustentabilidade em seu sentido mais amplo.

Mas como mensurar o resultado econômico de uma empresa? Claramente, o conceito de lucro contábil não é a medida adequada à sustentabilidade financeira, pois não considera vários aspectos importantes dos negócios. Uma empresa pode ter lucro contábil e não remunerar adequadamente o capital dos acionistas. Ademais, importantes aspectos de riscos do negócio não são levados em consideração. Obviamente, quanto maior o risco, maior deveria ser o retorno. Para superar questões relevantes como estas foram desenvolvidas teorias que deram lugar à abordagem de geração de valor.

O ponto de partida é o conceito de lucro econômico presente na obra de Alfred Marshall, influente economista britânico de meados do século XIX. O lucro econômico é o resultado das receitas menos todos os custos (de oportunidade) na produção de bens e serviços transacionados, que difere do lucro contábil que considera apenas os custos explícitos. Nas últimas décadas, esse conceito foi introduzido como elemento de gestão e ganhou popularidade com o acrônimo EVA (Economic Value Added), cunhado pela firma Stern Stewart & Company.

Essa forma de gestão vem recebendo cada vez mais atenção no ambiente corporativo e é crescente o número de empresas que utilizam o instrumental EVA para aferir o desempenho da organização e para balizar a remuneração da alta gerência. A obtenção do EVA de uma empresa demanda o levantamento de três informações primordiais, a saber: os retornos operacionais, o volume e o custo dos capitais investidos. As empresas que geram valor aos acionistas são aquelas que conseguem apresentar um retorno operacional superior ao custo do capital investido (capital próprio e de terceiros). Os resultados operacionais podem ser obtidos com o uso de informações básicas, com alguns ajustes. Por sua vez, o cálculo do custo de oportunidade do capital é algo um pouco mais complexo, mas que pode, com apoio de profissionais qualificados, ser levantado para qualquer tipo de empresa, inclusive para as médias e pequenas. Há várias teorias que versam sobre a forma de se precificar o custo do capital, merecendo destaque especial o CAPM (Capital Asset Pricing Model), desenvolvido com contribuições dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, Sharpe, Markowitz e Tobin. Esta teoria estabelece o retorno de qualquer ativo em função do risco assumido e constitui elemento central para o cálculo do custo de oportunidade de capital.

Das discussões apresentadas, emergem três vetores de valor que são extremamente importantes no gerenciamento do risco do negócio e na utilização do capital, sendo requeridas iniciativas para o sucesso econômico-financeiro de uma organização. São elas: otimizar a gestão de custos e receitas, de maneira a maximizar o resultado operacional; definir a estrutura ótima de financiamento; e gerenciar o fluxo de capital investido, canalizando-o para empreendimentos capazes de apresentar valores presentes de fluxo de caixa livres positivos.

Dentre empresas reconhecidas e admiradas que utilizam o EVA estão Coca Cola e Sony e, no Brasil, Ambev e Lojas Americanas. Este modelo permite uma tomada de decisão racional, assim como a seleção daqueles investimentos prioritários, contribuindo para a criação de riqueza, empregos, salários mais altos e elevação da competitividade da economia como um todo. Por conseguinte, pode, também, criar a ambiência propícia para que iniciativas como o ESG sejam adotadas de forma plena e genuína. Em suma, a utilização do EVA como estrutura de gestão e de acompanhamento de resultados pode trazer diversos benefícios, além da criação de valor aos stakeholders. Para concluir, fica uma pergunta: a sua empresa constrói ou destrói valor?

Ronaldo Lamounier Locatelli, Consultor de empresas e doutor em economia pela University of London (locatellirl@gmail.com)

Carlos Portela, Consultor de empresas e MBA em gestão empresarial (admportela@gmail.com)

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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