Ao Uber: tem de ser bom para os dois.

parceria

 

Há coisas que não envelhecem. Nossos bisavós já diziam que o negócio só é bom se quem compra e quem vende ficam satisfeitos. “Tem de ser bom para os dois”,  ensinavam. “Um parte o bolo, o outro reparte”, completavam o ensinamento.

Nos tempos contemporâneos da gestão empresarial, o autor Regis Mc Kenna conceitua marketing como sendo o “estabelecimento de relações lucrativas entre as partes”. Certamente, Mc Kenna aprendeu com os seus bisavós. Quando dois sócios têm cada um cinquenta por cento de um negócio e não estão satisfeitos com a sociedade, um propõe ao outro: “coloque preço na sua parte; se eu concordar, pago o que você pedir; caso contrário, você me paga o mesmo valor pela minha parte”.  Nessas condições não há como fugir do que é considerado justo. Qualquer que seja o resultado da negociação, ela será boa para as partes, como recomendavam os antigos.

Sou fã incondicional do modelo de negócios criado pelo Uber. Embora não seja algo único, pois há diversos casos de modelos disruptivos, o Uber ganhou tanta repercussão que acabou emprestando ao vocabulário o termo “uberização”.

Outro exemplo de modelo disruptivo são as grandes produtoras de vídeo. No início dos anos dois mil elas cederam lugar a inúmeros pequenos negócios instalados em garagens. Os então editores transformaram-se em empresários de competitivas produtoras.  Isso já era “uberização”. Os custos de equipamentos, então barreira de entrada no negócio, despencaram. Grandes máquinas deram lugar a computadores e softwares de edição de alta qualidade e acessíveis. Pesadas câmeras de captação de imagem perderam espaço para minúsculos equipamentos baratos e de alta resolução. O talento é que passou a ser a nova barreira de entrada. Bom para os profissionais de Videocomunicação, bom para os clientes.
Ruim apenas para os empresários que não enxergaram que uma sexta força desembarcava para se somar às cinco forças do modelo de Michael Porter: um novo modelo de negócios.

Mas será que o Uber aplica no Brasil a lição dos bisavós? Quando uma pessoa aluga um carro incluindo seu trabalho de motorista, ela está vendendo seu veículo em doses homeopáticas. Além disso, coloca a serviço sua habilidade profissional de condutor. Dessa forma, o valor do aluguel tem de ser suficiente para repor o bem e remunerar o trabalho. Tem de ser bom para o cliente e para o motorista dono do carro, o “uberista”. Para conseguir o cliente e ter um sistema operacional e de gestão competente ele precisa de um aplicativo, pagando uma quantia que seja justa. Tem de ser bom para o  Uber e o “parceiro”. Mas será que está sendo bom para os dois?

Tenho utilizado o Uber Xis com certa frequência em Belo Horizonte. Cem por cento dos “uberistas” que me atenderam até então afirmam que é um mau negócio. Estão nele como saída temporária para a crise econômica que levou à falência pequenos empresários e incluiu trabalhadores na lista de mais de treze milhões de brasileiros em busca de recolocação. Segundo os “parceiros”, na ponta do lápis a remuneração não compensa o trabalho, a manutenção do veículo, combustível, seguro e depreciação do bem. E mais: 25%  de comissão paga ao Uber pela utilização do aplicativo. Esses 25%, se contados de baixo para cima, representam 33,33 % sobre o valor bruto que o “uberista” recebe. Nessas condições o Uber é sócio majoritário no negócio.

Não conheço as regras do Uber em outros países, mas me chega a informação de que as taxas praticadas fora do Brasil são na ordem de dez por cento. Vão dizer que a carga tributária por aqui é elevada. É verdade, mas isso acaba servindo de muleta para todos que exploram das partes mais fracas em negociações. Eu não posso utilizar o Uber e me sentir parte na exploração do “uberista”. Fico incomodado, sinto pena, saio angustiado a cada corrida,  e isso não é bom. Ou o Uber reduz sensivelmente sua mordida nesse bolo sem fermento, ou pratica tarifas mais justas e competitivas em relação aos taxis. Sugiro os dois. Ou então o negócio corre o risco de ser descoberto como politicamente incorreto. Ainda,  poderá ficar sem “parceiros” ao menor sinal de aquecimento da economia. Afinal, o negócio tem de ser bom. Mas para todos.

Júlio Miranda
Diretor da MirandaConsult e do Conselho de Presidentes
julio@conselhodepresidentes.net

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Este post tem 2 comentários

  1. Avatar
    Anuar

    Excelente resenha Julio!
    Também tenho usado deste serviço e nesta semana passei pelo espanto de ver diversos destes motoristas assentados em uma praça e sem querer atender o serviço que eu demandava.
    Só fui atendido apos baixar e instalar o App da Cabify, que dizem estar melhor e mais justo para eles.

  2. Avatar
    Sidney Porto

    Muito bom Julio. Parabéns pelas colocações.

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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