Da Danada Da Cachaça Havana

Um dos produtos mais conhecidos entre os duzentos milhões de brasileiros é a danada da cachaça mineira. E entre marcas de quase dez mil estabelecimentos que produzem cachaça artesanal com aproximadamente 200 mil pessoas (acrescidas de mais 400 mil dos chamados empregos indiretos) em  Minas Gerais, a campeã é a Havana, de Salinas.  

A cachaça que expõe sua qualidade de maturação de 12 anos em barris de bálsamo também tem o preço mais elevado entre todas as marcas oferecidas. Com 75  anos de produção contínua num lugar que pouca gente conhece, longe de tudo, é sem dúvida a marca mais conhecida ou brand, como dizem hoje, de Minas no Brasil. E a mais respeitada.

Explicar essa história, descrita já tantas vezes, é na verdade explicar o que realmente é um empreendedor mineiro. Anísio Santiago, que foi o fundador, e os filhos dele, assim como os netos, segue princípios simples de gestão: sempre produzir com qualidade, sem ambição de ganhar muito dinheiro mas sem perder no negócio, e deixar todo mundo feliz

Começando com  apreciadores do produto, funcionários, comunidade. E não pode errar porque, como diz o filho do fundador, o Sr. Geraldo Santiago, se uma garrafa for de qualidade ruim você joga fora toda a história de 75 anos.

A produção e distribuição da cachaça artesanal mineira é uma verdadeira teimosia de alguns aficionados que criaram a Ampaq, associação de produtores de aguardente de qualidade, que controla a marca e só fez parte de um projeto integrado de desenvolvimento de Minas no final do ano 2000, quando a Fiemg fez o projeto Cresce Minas. 

Esse projeto previa o desenvolvimento do Estado através de clusters e precisava de, além daqueles de alta tecnologia, como eletrônica, metal mecânico, carne vermelha, também dos que criavam emprego e tinham raiz não no investimento fora do Estado ou nos generosos incentivos estaduais, mas na cultura e empreendedorismo mineiro. Aí nasceu o cluster da cachaça e o do pão de queijo.

Nesta hora em que temos na nossa frente desafios de desenvolvimento e de criação de emprego que grandes investimentos em mineração e indústria não estão criando, vale a pena ver o exemplo singelo da cachaça  mineira e da Havana. Como alguém tão distante do mundo chamado desenvolvido conseguiu sobreviver 75 anos e criar uma marca tão apreciada e respeitada.

Os novos planos de desenvolvimento com investimentos de 50 bilhões  de reais nos próximos anos nas áreas de infraestrutura, saúde, habitação e saneamento são necessários, mas não vão criar os empregos que o cluster da cachaça cria hoje. Além de 50% desse investimento virem do governo, os produtos  oriundos da cultura empreendedora mineira, em geral vindos da área rural e do interior do Estado, criam empregos, solidez financeira, continuidade e não dependem de governo, quebrado ou não.

A admirável saga de Anísio Santiago e seu herdeiros deve servir para uma reflexão sobre o nosso desenvolvimento. Estamos obcecados em procurar soluções grandiosas fora e desprezamos lições valiosas que temos na nossa história. Menos grandeza, mais humildade, menos Torino e mais Salinas. Menos nomes bombásticos de planos e mais realidade.

  • Stefan Salej é ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg, vice-presidente do Conselho do Comércio Exterior da Fiesp e Coordenador  Adjunto do  Gacint USP

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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