A força do preconceito e do conceito prévio

 A força do preconceito

Adoro contrapontos, direito ao contraditório, ou, mais diretamente, polêmicas. Por isso, me reservo o direito de levantar a lebre a seguir.

Drummond escreveu:

“No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra”.

Li, me dei o trabalho de interpretar, acatei argumentos de professores de literatura, gostei e recomendei. Afinal, Drummond é Drummond, e se ele escreveu é porque é bom. Sem assento na Academia Brasileira de Letras, se o destino lhe tivesse brindado com a imortalidade, talvez tivesse tido tempo de publicar:

Sucedi

“Acheguei-me, sucedendo e desacomodando toda a pândega,
sem recear, vociferei, apetecendo que tudo ficasse arregalado,
posto que nenhum vivente logrará êxito se desejar lesar a minha sina”.

Com certeza, meus sempre excelentes professores de literatura investiriam algumas aulas na interpretação do texto. Nós gostaríamos, recomendaríamos e, provavelmente, declamaríamos nos almoços de domingo. Afinal, Drummond é Drummond e todo o seu conceito prévio assegura que se ele escreveu é bom.

Mas o poeta não teve tempo de escrever o poema “Sucedi”. Ficou devendo essas linhas de desabafo, deixando um vácuo que acabou sendo preenchido por versos contemporâneos de igual sentido.

Cheguei

“Cheguei chegando, bagunçando a zorra toda
E que se dane, eu quero mais é que se exploda
Porque ninguém vai estragar meu dia
Avisa lá, pode falar”.

“Intelectuais” não interpretaram, não gostaram, não recomendaram e nem declamaram em almoços de família. Crianças e jovens de diversas classes sociais- é verdade que a maior parte de classe social da base da pirâmide- cantam, sob olhares sensores de quem prefere outros ritmos e linguagem. Mas aqueles que cantam simplesmente não param para interpretar, apenas sentem, e suas almas levitam sobre os versos e passos de dança.

Mas, a dança não é valsa, nem os versos são de Drummond, portando não trazem a carga de conceito prévio que poderia abona-los. Trazem, sim, uma carga de preconceito. Afinal, foram escritos por uma menina negra, de origem pobre e que conseguiu se dar bem, apesar do sobrenome ser apenas Silva.

Confesso que não gosto de Funk e da maioria de suas letras. Prefiro outros estilos. Mas asseguro: estou me esforçando muito para que o preconceito não seja meu argumento. O nome disso é respeito.

Júlio Miranda
Diretor do Conselho de Presidentes

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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