Governos em tempos sombrios

Já citei aqui um antigo senador americano que dizia que todas as pessoas tem direito à própria opinião, mas não o direito aos próprios fatos. Repito a citação porque nos últimos tempos muita gente faz questão de ter os seus próprios fatos. Isto torna  difícil o diálogo e a compreensão das coisas que acontecem. Na ausência de consenso as grandes questões sociais não se resolvem e os governos não funcionam. O enfrentamento  da pandemia é um bom exemplo da diferença que faz a capacidade de os governos alcançarem consensos mínimos diante   dos grandes problemas.

 No leste da Ásia o vírus chegou primeiro e de surpresa, quando nada ainda se conhecia dos seus sintomas, de sua evolução e dos tratamentos possíveis. Em todos eles, começando  pela China, mas em seguida também em países  democráticos como a  Coréia do Sul, o Japão,  Cingapura e  Taiwan, o surto foi tratado como uma questão sanitária,  não política. Os governos  conduziram a reação   com base na evidência científica.  Aplicaram medidas de isolamento e de distanciamento social, sem grande oposição  dos interesses afetados e construiram  com rapidez a infraestrutura de emergência necessária. O resultado é que em todos eles, com a cooperação da sociedade,  a pandemia  foi controlada com um número mínimo de mortes e as economias estão em recuperação.

Em alguns países da Europa e das Américas a história foi diferente.  Na Itália, nos Estados Unidos e também no Brasil, a primeira reação dos governos foi negar a gravidade da doença, politizando um problema  exclusivamente sanitário. Em seguida foi alimentada uma  resistência política  às medidas de isolamento social, para poupar danos à economia e à popularidade dos governos. O vírus se viu finalmente livre para propagar-se e para matar, depois de sua derrota na Ásia.

Os números da pandemia nesses dois grupos do países falam por si. Até agora na China, com mais de  um bilhão de habitantes,  o total de infectados é de 86 mil e de mortes, 4.624, conforme dados das autoridades chinesas. Se alguém quiser  duvidar destes dados, pode olhar o que se passou com seus vizinhos.  No Japão os infectados somaram 23 mil e as mortes 982; na Coréia do Sul os infectados foram apenas 13 mil e as mortes 289. São países também populosos e com governos democráticos. A doença perdeu para a boa governança e a cooperação da sociedade.

Enquanto isto, nos Estados Unidos, após meses de seu início, a pandemia continua  devastadora. O total de infectados chega a 3.500.000 e de mortos 136.000. Na semana passada 75 .000 novos casos eram registrados por dia, com a média de 1.000 novos óbitos. O Brasil, apesar de o governo federal negar continuadamente a gravidade do problema e de manter-se há dois meses sem Ministro da Saúde, com o Ministério entregue a uma maioria de amadores, os casos já ultrapassam    os 2 milhões e as mortes 75.000, com 44 mil novos casos a cada dia. Com apenas 2,7% da população do mundo, o Brasil já acumula 14% dos casos da doença e 12% de todas as mortes registradas. O vírus é o mesmo, diferentes são os governos.

É claro o que  nos tornou diferentes, o Brasil e os Estados Unidos :  a má qualidade da governança pública. Governos só conseguem cumprir sua função de governar com a cooperação da maioria da sociedade. Nenhum instrumento legal ou de força é capaz de substituir a concordância dos cidadãos. Os antigos regimes totalitários da Rússia e do leste europeu tinham à sua disposição o máximo da força e do terror, mas fracassaram em todos os campos.

Todos os governos, além dos votos nas urnas, precisam de concordâncias mínimas na sociedade. O lugar em que estas concordâncias podem existir  não é no ar infeccionado das redes sociais. Consensos não se formam espontaneamente pois os grupos humanos que constituem uma nação podem ter visões e interesses diferentes. Controlar os instintos maus e  conciliar as diferenças em benefício de propósitos comuns é a tarefa suprema dos grandes lideres e da grande política. Quando os teremos entre nós?

Roberto Brant

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Gestor

Paulo de Vasconcellos Filho, 67 anos, atua como Consultor há 43 anos orientando processos de Planejamento Estratégico em 378 empresas de pequeno, médio e grande porte, que atuam nos mais diversos setores. Publicou seis livros sobre Planejamento Estratégico, sendo o primeiro em 1979 e o mais recente publicado pela Editora Campus, com o título “Construindo Estratégias para Vencer!”

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